NAS PEGADAS DE MARCOS: NOTAS A UM CONTO DE BORGES
Claudio Cruz* – UFSC
No conto intitulado O Evangelho segundo Marcos, publicado em l970, o escritor argentino Jorge Luis Borges traça uma equivalência entre cenas ocorridas numa fazenda da região do pampa em 1928 com os episódios da Paixão de Cristo. Como se sabe, não se lê uma página de Borges sem que sejamos convidados a entrar na Biblioteca. Com esse conto não poderia ser diferente. Basta ler o texto duas ou três vezes para levantar-se uma série de indícios, de pistas deixadas por Borges, solicitando uma leitura intertextual.
Mas antes de qualquer coisa, convém expor a situação básica da narrativa. Um rapaz vindo de Buenos Aires, ao ficar isolado em uma fazenda devido às fortes chuvas na região, passa a ler e a traduzir para alguns empregados analfabetos o Evangelho de Marcos, utilizando-se de uma antiga Bíblia inglesa que por lá encontrou. A partir de uma série de identificações que os peões passam a estabelecer entre o rapaz e Jesus, misturando o que ouvem com sua realidade imediata, acabam por acreditar que o rapaz lê para eles sua própria história. Numa alucinada busca pela salvação, eles acabam revivendo todos os papéis necessários à reatualização do mito da Paixão, exceto a figura de Jesus que, segundo eles, vem a ser o próprio rapaz, o Cristo reencarnado.
Os pontos de contato são em número muito grande para uma exposição como essa, mas pode-se destacar os mais relevantes. A começar pelo próprio título do conto, que torna explícita a relação com a história de Jesus. Também cabe ressaltar inicialmente o nome do protagonista, ou seja, aquele que acabará revivendo o papel de Cristo quase dois mil anos depois. Chama-se Baltasar Espinosa. Mais importante que o primeiro nome, Baltasar, de evidente filiação bíblica, é o sobrenome Espinosa, que remete ao filósofo judeu Baruch Espinosa. Trata-se, portanto, de um judeu argentino e que, além de ser judeu como Jesus, conta, no momento da ação narrativa, com exatos trinta e três anos, a chamada "idade de Cristo”. O nome da fazenda onde irão ocorrer os acontecimentos é La Colorada, "A Vermelha”, na discutível tradução brasileira, mas que de qualquer maneira acaba por remeter ao sangue do crucificado. Os dias da semana registrados no conto, da mesma forma, correspondem aos dias da Semana Santa, e a crucificação ocorre numa sexta-feira. Muitos outros indícios desse teor poderão ser encontrados ao longo da leitura, reforçando o caráter intertextual já denunciado a partir do título do conto.
Como seria de esperar no caso de um escritor como Borges, nem sempre as identificações entre o texto de partida e o texto de chegada ocorrem num mesmo sentido. Às vezes se dão mesmo com sinais trocados, como é o caso, por exemplo, do caráter frouxo de Baltasar Espinosa em oposição à forte personalidade da figura de Jesus, tal como se propagou pelo Ocidente. Essa inversão, aliás, vem a ser decisiva para o desfecho do conto, conforme veremos adiante.
Quando partimos, no entanto, para uma investigação intertextual mais sutil, presente em camadas mais profundas da narrativa, uma questão sobressai. E essa questão é a seguinte: por que Evangelho de Marcos? Por que Borges utiliza esse Evangelho e não o de Mateus, Lucas ou João, que formam — junto com Marcos — os quatro evangelhos aceitos pela Igreja? Ou até — em se tratando de Borges — por que não algum evangelho apócrifo, um daqueles não incluídos no cânone cristão, como ele costuma utilizar em outros momentos de sua obra? Dada a conhecida erudição borgeana e, principalmente, a complexidade apresentada por textos pertencentes ao cânone bíblico, como é o caso desse Evangelho, ficamos frente a uma tarefa bastante difícil. Mas pode-se, naturalmente, apontar algumas linhas básicas de investigação.
Uma das mais fecundas me parece ser aquela relacionada a um tema muito caro a Borges, qual seja, a força da narrativa oral. Antes, porém, de seguir nessa direção, talvez fosse conveniente nos desfazer daquela visão harmoniosa que se tem, em geral, da história de Jesus, como se ela fosse uma única e consensual história. Na verdade, ainda que restritos aos evangelhos aceitos pela Igreja, temos quatro relatos, quatro visões e, portanto, quatro histórias diferenciadas, ainda que nossa memória tenda a misturar elementos de todos os evangelhos canônicos, formando assim uma única história. No entanto, há passagens em Marcos inexistentes em Lucas e João, assim como certos episódios que são exclusivos do Evangelho de Mateus, enquanto outros aparecem nos quatro, e assim por diante.
Desfeita, portanto, aquela imagem única da “vida de Jesus”, passamos a considerar que o conto que ora nos ocupa tem como fundamento a força da narrativa oral, já que aqueles que recebem essa narrativa são, como vimos, analfabetos. E, dessa forma, totalmente dependentes da leitura que lhes é feita, no caso, pelo protagonista Baltasar Espinosa. Esse é, ao que parece, um dos motivos centrais que aproximam o conto de Borges do Evangelho de Marcos. É certo que a força da narrativa está presente nos quatro evangelhos, reconhecidos pela crítica contemporânea como verdadeiras peças literárias. Neste sentido, qualquer um poderia servir a Borges. Mas o que distingue o texto de Marcos é que ele está muito mais próximo da narrativa oral do que Mateus e Lucas e, principalmente, de João, considerado o mais elaborado em termos literários. Pelo menos é isso que aprendemos com alguns dos principais especialistas em Evangelhos.
Marcos era visto também como sendo o mais tipicamente narrador entre os quatro evangelistas. Narrador no sentido de "contador de histórias” popular. Retinha no seu texto escrito “algo do estilo e da vivacidade da história oral”. Algo, portanto, do estilo e da vivacidade do próprio Jesus, que instruía seus seguidores de viva voz, trinta ou quarenta anos antes dos evangelhos terem sido escritos. Por outro lado, Marcos não se preocupava muito com as questões estilísticas, de refinamento textual. Não era um artista, no sentido em que podemos designar os outros evangelistas.
Tudo isto condiz, especularmente, com as cenas descritas no conto, onde o Jesus-Baltasar Espinosa também instrui seus seguidores de viva voz, voz muito bem treinada na arte oratória, como informa o narrador. E, portanto, com grande capacidade de convencimento, como Jesus em sua época.
Sempre seguindo os especialistas em literatura bíblica, temos muitas características que podem justificar o por que da escolha de Borges por esse evangelho para embasar o seu conto. O Jesus de Marcos, ao ensinar, usa as parábolas que o rabinismo classificou como aggadah, que são aquelas parábolas próprias para a instrução do povo, para distinguir de halakah, que são um tipo de parábola utilizado para a instrução da elite. Por isso, Marcos, adotando parábolas do tipo aggadah propõe enigmas que encantam crianças e analfabetos. Que encantam, mas que nem sempre levam a um entendimento. Os discípulos de Jesus, no Evangelho de Marcos, aparecem como tolos, obtusos, não compreendendo as palavras de Jesus. Há mais de uma passagem em que Cristo os repreende pela falta de compreensão e perspicácia. Essas características, evidentemente, colaboram para uma distorção daquilo que ouvem, tal como ocorre no conto, e que acaba sendo fatal para o protagonista.
Outro dado dos mais relevantes para um melhor entendimento do conto diz respeito ao modo como Marcos privilegia a ação. Não se encontram digressões desnecessárias nas inúmeras narrativas incorporadas ao Evangelho de Marcos, como é comum em Lucas e mesmo em Mateus, que abrem espaço para ditos e reflexões e, portanto, para considerações filosóficas ou similares. Não, em Marcos tudo se dá de forma direta e concisa, com grande apelo popular, constituindo-se o Jesus de Marcos em um típico herói de conto folclórico.
Antes de sua canonização oficial como Escritura Sagrada, o Evangelho de Marcos circulou entre pessoas comuns e encantou-as. Talvez — comenta um especialista de forma irônica — por não ter nada de bom a dizer sobre o mundo oficial: escribas, procuradores, altos sacerdotes, altos funcionários, em suma, a aristocracia da época na Palestina.
Como se pode perceber, o auditório de Marcos não era muito diferente do auditório de Jesus: pessoas simples do campo, camponeses da Galiléia, gente pobre, sofrida, em busca de uma salvação que as aliviasse das dores do mundo. Basta ler o conto para perceber que os empregados da fazenda estão muito próximos da comunidade dos cristãos primitivos. Os mesmos que seguiram as palavras de Jesus de viva voz, ou seja, aqueles que escutaram o próprio Jesus. Semelhantes, em grande medida, aos camponeses descritos por Borges no pampa argentino. Pessoas “pobres, sofridas e castas" como nos diz o mesmo Borges em um poema sobre os gaúchos dessa região.
Por fim, o Jesus de Marcos executa os milagres caros à piedade popular por transformar com um toque de mão o sofrimento solitário em felicidade social; e obviamente esses milagres são suspeitos à filosofia, aos doutos, precisamente por sua realização instantânea dos desejos. Assim, Jesus é um herói adequado para o cristianismo em sua fase primeira e não oficial; doméstico, e levado por missionários viajantes para aqueles que se compraziam em ouvir falar sobre a subversão e transgressão a um tipo de religião que nunca os atraiu.
Todas essas características acima apresentadas esclarecem e justificam, de um ponto de vista da composição literária, os acontecimentos em La Colorada. É mais verossímil, ou só poderiam ser verossímeis tais acontecimentos, a maneira pela qual se desenrolaram, a partir do Evangelho de Marcos. Isto pelo seu caráter marcadamente popular, de narrativa oral, simples, direta, concisa — Marcos é de longe o mais curto dos quatro evangelhos. Assim, fascinados pelo poder da narrativa de Marcos, somada à oratória de Baltasar Espinosa, e imbuídos por um profundo desejo de salvação, os rústicos gaúchos não hesitam em reatualizar o mito da Paixão em pleno pampa argentino. Excetuando Cristo, cumprem todos os papéis necessários à reatualização do mito: são os discípulos amados, são o povo em busca de milagres, são os traidores, são os soldados, são, enfim, aqueles que o crucificam.
Neste sentido, uma das passagens mais instigantes, ponto alto do conto de uma perspectiva dramática, é quando perguntam a Baltasar se mesmo aqueles que o pregaram na cruz se salvaram. Ao responder que sim, Baltasar Espinosa está decretando a sua morte, e os gaúchos estão livres para matá-lo. E prontos, também, para serem salvos. Conclui-se, nas palavras de Beatriz Sarlo ao analisar o conto, a “barbarização do relato fundacional do Ocidente”. Como só Borges podia fazer.
* Claudio Cruz é Doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Professor Adjunto em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina.